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Fé na padroeira com amor ao próximo

Devotos LGBTs encaram o preconceito em nome da devoção

Notícias // Pará
Publicada em 17/10/2018 às 09:15:19

 O preconceito, por mais que machuque, não os distancia da fé. É isso que relatam Andreza, Fábio, Rafaela e Isabella, integrantes da comunidade LGBT+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) e devotos da Virgem de Nazaré. 

 

“Muitas vezes desanimei. Não vou mentir. Mas quando percebi que o amor de Maria me basta e me acolhe, renovo minhas forças e sigo em frente”, declara a funcionária pública Isabella Santorinne, 27, católica e mulher transexual. Devota de Nossa Senhora de Nazaré desde criança, ela conta que vivencia o Círio durante todo o ano, “sempre ajudando e acolhendo as pessoas que mais precisam”. “Um dos maiores valores que aprendi na igreja foi amar ao próximo como a mim mesmo”, afirma ela, lamentando que nem todos os cristãos cumprem o mandamento. 

 

“Muito do que é pregado na igreja não é levado ao pé da letra quando se trata de população LGBT+” diz, ao contar que usa a sua fé como meio de luta. “Maria sempre me dá muita força quando me sinto excluída. Mesmo sabendo que muitas pessoas não entendem o que eu sou e me discriminam, eu tento seguir os caminhos Dela. Infelizmente, nós ainda sofremos muito preconceito em um espaço onde todos deveriam ser acolhidos, mas acredito que isso pode mudar, porque Ela ama seus ‘filhos’ sem nenhuma diferença”, ressalta.

 

Há um ano, o estudante de terapia ocupacional Fábio Lobato, 20, católico desde o nascimento, consagrou-se à Maria. Gay, ele explica que só passou a se reconhecer como católico aos 19, no Círio do ano passado, quando acompanhou uma amiga promesseira que tem depressão e percebeu “o quanto aquilo, de fato, era o amor de verdade”. “Eu vi que, apesar de grande parte das pessoas da igreja nos julgar, não são elas que vão ditar o que é certo ou errado. É Deus, é Nossa Senhora, que é mãe e que teve seu filho que passou por todas as dificuldades e opressões, como nós, muitas vezes, passamos” esclarece. 

 

Natural de Vigia, município em que o Círio de Nazaré também é realizado, Fábio lembra que foi ver sua amiga rendida aos pés da “Rainha da Amazônia” que o fez comover-se ao amor de Maria. “Quando ela acabou, eu me peguei em um momento de gratidão tão grande, que quis ter esse amor todos os dias”. Ele ainda lembra que, naquele momento, prometeu que se sua amiga fosse curada da depressão, doença também vivenciada por ele, em 2018, eles trilhariam a promessa juntos. “Ela ainda não está curada, mas só de ter ela por mais um ano, é um grande ganho. Por isso, vou de joelhos dessa vez” destaca. 

 

Sobre o comportamento da igreja perante a comunidade LGBT+, Fábio pondera que o desânimo é quase inevitável, principalmente “porque as pessoas que estão à frente da igreja são muito ouvidas e se elas dizem que é errado, a maioria da população também vai dizer”. “Muitas pessoas acabam se utilizando do seu poder de fala para ditar a vontade de Deus, quando, na verdade, é só sua opinião”, lamenta o universitário, que acredita que Deus julga o ser humano apenas “pelo amor que tem dentro de seu coração”. 

 

“Seria errado da minha parte não ter esperanças de uma mudança da igreja em relação a isso, mas é algo muito difícil, que vamos precisar de muita força, coisas que só Maria pode nos dar. Eu acredito que um dia ainda possa ter uma acolhida fraterna, não pela igreja em si, mas pelas pessoas que estão dentro. Acho que elas ainda irão praticar, de fato, o amor que Deus prega” relata, ponderando que “é uma questão de egoísmo negar Cristo às pessoas”. Para Fábio, a força para enfrentar os preconceitos “é acreditar que Ela é mãe e te ama da maneira que tu és”. “É como se ela me tratasse com a naturalidade que eu gostaria de ser tratado por todos”, explica.

 

Edição: André Santos

Fonte: ORM

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