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O vento soprou contra Hillary

Por: Helio Gurovitz

Opinião // Artigos
Publicada em 25/07/2016 às 16:46:13

Quem é de São Paulo não esquece o debate eleitoral de 1985, em que o jornalista Boris Casoy perguntou ao então candidato a prefeito Fernando Henrique Cardoso se ele acreditava em Deus. A resposta foi uma enrolação. Para muita gente, custou a FHC a cadeira de prefeito, onde ele até já havia sido fotografado. No lugar do sociólogo de esquerda que não sabia dizer se era cristão, macumbeiro ou ateu, o paulistano preferiu um devoto não apenas do Todo-poderoso, mas também de colocações pronominais esdrúxulas e libações contumazes.

 



Para intelectuais formados no marxismo, como FHC, religião é um assunto complicado. Não se sabe se o americano Brad Marshall, diretor-financeiro do Comitê Nacional do Partido Democrata (DNC, na sigla em inglês) ouviu falar na peça que Casoy pregou em FHC. Mas parece que teve a mesma ideia para emparedar o socialista que ameaçava nas primárias a candidata Hillary Clinton. Eis o que Marshall escreveu num e-mail vazado pelo Wikileaks na última sexta-feira: “Podemos pedir a alguém que pergunte sua crença. Ele acredita em Deus? Ele patinou para dizer que tinha uma herança judaica. Acho que li que ele é ateu”. Marshall negou que o e-mail se referisse ao judaísmo de Bernie Sanders. 



Embora a religião judaica não defina seus integrantes pelo grau de devoção – nem por aquilo em que dizem crer –, num país religioso, como Brasil ou Estados Unidos, é fatal para um político não demonstrar sua fé, nem que por hipocrisia. Sanders, tão judeu quanto um socialista pode ser, não é muito dado a tartufadas. O golpe Casoy certamente lhe teria custado votos nas prévias. A dúvida, agora, é o que a revelação dos e-mails do DNC custará a Hillary, que será indicada nesta semana candidata a presidente pela Convenção do Partido Democrata, na Filadélfia, com apoio do próprio Sanders.



A presidente do DNC, Debbie Wasserman Schultz, declarou que renunciará ao cargo depois da Convenção e desistiu de discursar. Apesar do constrangimento, até o momento ninguém descobriu nos 20 mil e-mails vazados pelo Wikileaks prova de atos ilegais – nem mesmo o golpe Casoy de Marshall chegou a ser aplicado. Eles não acrescentam ingredientes novos ao cenário eleitoral. Trazem apenas evidências do que todos já sabiam: a elite democrata apoiava Hillary, não Sanders. O maior embaraço recai, portanto, sobre Debbie e sobre o próprio comitê, que, em tese, deveria se manter isento na disputa. 



Hillary não sairá ilesa, porém. O vazamento é mais um escândalo, entre vários que lhe têm custado pontos nas pesquisas de intenção de voto. O principal envolve o uso de servidores privados de e-mails quando ela era secretária de Estado, no primeiro governo do presidente Barack Obama. Depois de 18 meses de investigação, o FBI acusou Hillary de desleixo. Como não viu má-fé, desistiu de indiciá-la. No campo da imagem, contudo, o efeito foi desastroso. Como a  Secretária da Justiça, Loretta Lynch, manteve um encontro com Bill Clinton num aeroporto dias antes do anúncio do FBI, ficou parecendo que o FBI e o Departamento de Justiça desistiram de processá-la por razões escusas.



Hillary ainda é dada como favorita nas pesquisas, graças às regras convolutas das eleições presidenciais americanas. Mas o republicano Donald Trump tem encostado em várias sondagens e, em estados críticos, como Flórida ou Ohio, começa a aparecer em primeiro lugar. Não se sabe se é apenas uma alta passageira, influenciada pela Convenção Republicana da semana passada, ou se Trump continuará a arrebatar votos. Por ora, o vento sopra a favor dele – e contra Hillary.



Ao escolher o senador Tim Kaine, da Virgínia, para candidato a vice em sua chapa, Hillary fez um aposta segura (na foto, os dois durante o anúncio, na última sexta-feira). Para os padrões democratas, Kaine é um moderado. Defensor do livre-comércio, católico, é contrário ao aborto e à pena de morte, embora a tenha acatado quando governador da Virgínia. Foi missionário jesuíta em Honduras e fala espanhol fluentemente – fez o primeiro discurso em espanhol na história do Senado, ponto a favor no eleitorado latino. Mesmo rendendo votos na VIrgínia, estado-pêndulo onde Hillary já lidera, é difícil acreditar que a escolha de alguém com o perfil de Kaine possa ter algum peso na balança eleitoral.



A campanha de Hillary apresenta incógnitas bem maiores que a de Trump. O desafio de quem tenta combater um populista com talento para a comunicação é conquistar o coração dos eleitores. As qualidades de Hillary – inteligência, determinação, capacidade de ouvir e paciência – tendem a surtir pouco efeito numa campanha movida a demagogia. Seus defeitos – elitismo, falta de empatia, dificuldade de inspirar confiança e de estabelecer contato emocional – são, e continuarão a ser, explorados pelo adversário. Numa eleição normal, seus marqueteiros teriam de compensá-los e construir uma narrativa em que Hillary emergisse como resposta para os problemas do país. Numa eleição com Donald Trump, ainda que ela seja favorita, só marketing não bastará.

 

 

Fonte: G1

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